Li hoje uma matéria no Jornal do Commercio sobre homossexualismo na Colônia Penal Feminina do Recife, conhecida como Bom Pastor. Infelizmente, a matéria que disponibilizaram na Internet não traz um gráfico com dados feitos pela ONG Movimento Gay Leões do Norte, que foi publicado na versão impressa do jornal. No entanto, transcrevo aqui o tal gráfico: uma “radiografia” das lésbicas do Bom Pastor indicou que 66% das detentas se declararam homossexuais contra 3% heterosseuxais; 17% não informaram sua orientação afetiva sexual (foi assim que chamaram na reportagem); 14% disseram ser bissexuais e 3% herossexuais, sendo que 84% das presidiárias têm ensino fundamental incompleto. Eu imaginava e sabia que o número de detentas lésbicas era alto, mas não imaginava que fosse mais da metade do total de presidárias. Vocês acreditariam que se tal pesquisa tivesse sido feita em algum presídio masculino o número de homens que se declarasse gay seria tão alto assim? Não creio. Apesar de que sabemos que isso é bastante comum lá dentro.
Aqui está a reportagem publicada no JC:
Cartas ditam amor entre detentas
Publicado em 29.06.2009
Cento e oitenta e duas cartas de amor de diferentes pretendentes em apenas um mês. Uma média de aproximadamente seis correspondências por dia. Isso pode até parecer um recorde de declarações amorosas, mas não quando o assunto é a Colônia Penal Feminina do Recife, no Engenho do Meio, Zona Oeste da capital. Na única unidade prisional para mulheres da Região Metropolitana, as confissões sentimentais entre as detentas por meio de bilhetes são comuns. Basta alguns dias na cela de espera – local onde ficam as presas recém-chegadas – para chover propostas de namoro.
“Eu sabia que rolava assédio aqui dentro entre as meninas, mas não desse jeito. Só quando eu estava na espera recebi 96 cartas. Fiquei impressionada”, disse Macilene Franquilino dos Santos, 29 anos, a dona das 182 declarações de amor. Há pouco mais de um mês na unidade e homossexual assumida, ela garante que continua resistindo às dezenas de cantadas recebidas todas as semanas.“Os bilhetes chegam de mão em mão. Às vezes é uma amiga que entrega. Mas tenho uma namorada lá fora e pretendo ser fiel à ela. Não respondi nenhuma carta, rasguei todas elas”, revela Macilene, que está presa por tráfico de drogas.
Adepta das cartas para conseguir novos relacionamentos dentro da cadeia, Karina Ferreira Silva, conhecida como Caquinho, 32, disse já ter conseguido várias namoradas somente com a troca de bilhetes. “Depois de um ano aqui arranjei minha primeira namorada. Antes disso fiquei sem nenhuma. Nesses seis anos que estou presa tive muitas mulheres. Já perdi as contas de quantas cartas já mandei e recebi na cadeia”, destaca Caquinho, mostrando uma montanha de papéis rabiscados.
Em um deles, a declaração de amor vem em forma de poesia. “Um alguém: você, um sabor: o teu beijo, um medo: perder você, um pedido: me ame como eu te amo”, diz o bilhete, assinado por Estrela. “Aqui é assim, o amor corre solto no ar. Saio de uma namorada e vou para outra”, afirma Karina, detida sob acusação de matar com um tiro de espingarda 12 o ex-companheiro de uma namorada por ciúme.
Já Claudeir da Silva, 32, detida há três anos por tráfico, prefere um relacionamento mais sério. Ela diz não ter resistido aos encantos de uma “novata” na unidade e partiu para o ataque. “Minha companheira é daqui, conheci aqui dentro, com muita carta. A gente se conheceu assim que eu entrei. Foi a primeira experiência dela com uma mulher. Joguei uma lábia e ela caiu”, conta Claudeir, que desde criança gosta de usar roupas de homem.
Vestindo bermudão, camiseta e boné para trás, ela explica que a aceitação das outras presas da Colônia Penal como homossexuais é grande. “Uma aceita a outra, o preconceito é pouco. Às vezes a gente escuta um comentário, de gente que é contra uma mulher com outra, mas é pouco. Eu e minha companheira dormimos juntas, na mesma cela, na mesma cama. As outras presas aceitam. Encontrei o amor da minha vida aqui. A gente dorme junto, trabalha junto, quero mais o que?”, brinca.
Claudeir já faz planos para o futuro. Pretende continuar com a companheira e construir uma nova vida. “Estamos para sair na condicional. Fazemos planos para viver juntas, em casal, e construir uma nova vida.”
A chegada à Colônia Penal Feminina do Recife mudou a vida de Luciene Soares de Oliveira, 40. Lá, começou a namorar uma colega de cela. Foi solta e um deslize a fez voltar à unidade. Durante esse período fora da cadeia, declarações de sua mãe levaram o novo casal a desconfiar que poderia haver um parentesco entre as duas.
“Pois é. Acho até que a gente pode ser irmã por parte de pai. Minha mãe e um tio meu desconfiaram disso. Mas só depois que a gente sair da prisão, vamos viajar para o Sertão, para conversar com alguns familiares e descobrir se essa informação procede”, explica.
Mas quando questionada sobre o que as duas vão fazer caso fique confirmado o parentesco, Luciene, que foi presa por tráfico, é enfática. “Vamos continuar juntas. O que rola entre a gente é uma coisa visceral. Às vezes brigamos por causa de ciúme, de arrancar o pedaço uma da outra. Mas logo depois estamos juntas de novo. Se uma pessoa me insultar, ela vira bicho e se alguém agredi-la, é como se estivesse batendo em mim”, argumenta a detenta, que passa o tempo na cadeia desenhando vestidos femininos.
VISITA ÍNTIMA
Única unidade prisional de Pernambuco a aceitar visitas íntimas de pessoas do mesmo sexo, a Colônia Penal Feminina do Recife sai na frente quando a conversa é a quebra de tabus. Desde 2001, a direção autoriza os encontros entre as detentas e suas companheiras.
“Quando eu cheguei aqui, havia uma demanda grande. Verificamos a Lei de Execuções Penais e vimos que não há distinção. Se a gente negasse o encontro homoafetivo, iria caracterizar preconceito”, explica Ana Moura, diretora da colônia e responsável pela liberação das visitas entre mulheres.
Para o promotor da Vara de Execuções Penais, Marcellus Ugiette, é comum que unidades femininas apresentem um índice maior de homossexualismo. “Isso é decorrente da própria estrutura feminina, da carência, já que as mulheres presas tendem a ser abandonadas por suas famílias e seus companheiros após entrarem no sistema prisional”, destaca.
De acordo com pesquisa feita por Ugiette na Colônia Penal, cerca de 25% das lésbicas voltam a ser heterossexuais quando saem da prisão. “Elas viram lésbicas pelas circunstâncias. E nas unidades femininas o preconceito é bem menor.”
Novas unidades vão ter área para gays e lésbicas
Publicado em 29.06.2009
Até o fim do ano, de acordo com a Seres, deve ser iniciada a construção de um presídio com capacidade para 3,1 mil detentos em Itaquitinga, na Zona da Mata, e um outro para jovens de 18 a 25 anos com 440 vagas em Tacaimbó, no Agreste, além de uma unidade feminina que será inaugurada nos próximos dias em Paulista, no Grande Recife. As três unidades, segundo Viana, já devem ter espaço separado para os homossexuais.
Esse tipo de experiência já está sendo testada de forma pioneira em Minas Gerais, no Presídio de São Joaquim de Bicas, Região Metropolitana de Belo Horizonte. A unidade masculina, inaugurada no início do ano, conta com um pavilhão exclusivo para os gays. A Secretaria de Defesa Social mineira classificou os primeiros meses da experiência como bem sucedida.
As próprias entidades que defendem os direitos dos gays e lésbicas ficavam em cima do muro quando o assunto é separar os homossexuais dos outros presos. Após realizar uma pesquisa em duas unidades prisionais pernambucanas, no entanto, a ONG Leões do Norte começou a enxergar a idéia com bons olhos.




Achei genial essa matéria!
Agora imagina se aparece uma Helena no B. Pastor. Macielene, coitada, perderia o trono!!! E a quantidade de traficantes, ladras, estelionatárias e assassinas que apareceriam nessa cidade.. Só Jesus e Michael, no céu, poderiam olhar por nós! (se não caíssemos na tentação tbm…)
Se a porcentagem de lésbicas na população é relativamente baixa, por que nos presídios é tão alta? Será que as lésbicas têm uma maior propensão ao crime? Eu não acho, mas essa matéria pode levantar esse tipo de argumento.
Alguns pontos soltos que me vieram à mente enquanto lia a matéria:
1) IMHO, vale dar preferência ao termo homossexualidade, e não homossexualismo, nem que seja em respeito àquelas pessoas que tanto lutaram para que este fosse removido das listas de doenças e transtornos;
2) Não vejo como podemos promover uma sociedade em que a diversidade seja tida como algo benéfico e natural através de segregação. Não me parecem existir motivos para isolar as detentas que se identifiquem como LGBT das demais. Se houver registros de violência ou intolerância, isto sim é que deve ser trabalhando. Com a separação, há apenas a reafirmação de que a convivência respeitosa entre diversos(as) não é possível;
3) Já vi casos desta separação ser utilizada como punição, constrangimento ou ameaça. Se forem separar, qual será o critério? Vai ser a declaração da detenta? Quem me garante que ela foi livre e espontânea, e não simulada, fraudada ou forçada? Se a decisão for das agentes prisionais, lascou. Olha o que deu em uma situação apenas análoga na Virgínia, USA: http://news.yahoo.com/s/ap/20090610/ap_on_re_us/us_lesbian_cell_block ;
4) @tata – há vários estudos que concluem pela tendência a comportamentos homossexuais em situações de confinamento, como na prisão – ainda por cima superlotada. Este comportamento não necessariamente refletiria a orientação sexual da pessoa em situações de normalidade. Já o fato de estes números não serem registrados nos homens na prisão é mais explicado pela sociedade machista e heterocentrista (ou seria homofóbica?). As mulheres tem menos reservas em expressar ou admitir essa situação. Já vi muito homem preso jurando que não era homossexual, já que o ativo era ele (!!!). É a logica transviada de “i’m not gay, but my boyfriend is”… hehehe
Já informei para minha amiga que desde ontem tá trabalhando na guarda do Bom Pastor que lá tá cheio..rrsrsrs Ela me falou que corre… Vai que ela encontre uma Sharon Stone por lá, né! Imagino só as caras das dententas, apesar que já vi umas em cardinot que dava pra pegar.. rsrrsrsrs
Mas achei interessante, o número é muito alto!
Queremos cartas de amor enviadas por homosexuais!
é para um trabalho